Nas experiências das pessoas não binárias, há uma infância marcada pela proibição de ser
quem se é. O seu “eu” é alienado de si mesmo. Por isso, a construção de si é frequentemente
atravessada por uma sensação de espelho quebrado, de identidade fragmentada,
transformando as infâncias queer em pedras partidas.
Por isso, em seu trabalho, há uma busca pela criança perdida, uma tentativa de reencontrar a
inocência através de objetos que guardam memória afetiva: fotografias, relíquias, lembranças.
Esses objetos são corpos de tempo, suportes de inscrição do vivido. Neles, Gui projeta ecos de
si e dos outros: rastros que se entrelaçam na superfície como se fossem espelhos de um “eu”
coletivo e mutante.
As estrelas, por sua vez, são tomadas como materialidades tanto minerais quanto celestes. Há
nelas o reconhecimento de que somos feitos da mesma matéria dos astros. Cada pedra, cada
corpo, cada poeira sobre o objeto carrega o mesmo carbono, o mesmo brilho ancestral.
Nesse sentido, o micro e o macro se espelham. A teoria da fractalidade revela que as formas
da natureza se repetem em diferentes escalas: da galáxia à célula, do astro ao pólen. É nesse
reflexo infinito que habita o sublime.
Lucas Dilacerda
Curadoria, AICA - International Association of Art Critics
Subilme Estelar
A exposição Brilho marca um momento de transição na trajetória de Gui Borsatto, artista
que agora assina com um nome sem marcador de gênero. Em sua deriva, Gui instaura
uma atmosfera de tempo suspenso: tudo parece mover-se lentamente, como se o instante
respirasse em silêncio.
A mostra apresenta a nova pesquisa de Gui em torno do brilho, das estrelas, da sublimação,
daspedras e da geologia. O artista continua investigando a transitoriedade e o tempo, agora a
partir da luz que emerge do próprio processo de decomposição. Cristais, pérolas, pigmentos e
poeiras cósmicas se entrelaçam em uma poética que une o terrestre e o celeste, a matéria e o
sonho.
A noção de sublimação, central à psicanálise, torna-se um conceito-chave para se aproximar
dessa virada. Sublimar é deslocar a energia pulsional (frequentemente ligada ao desejo e à dor)
para o campo da criação, transformando o sofrimento em forma, o trauma em beleza. O brilho,
nesse sentido, é o rastro visível de uma transmutação interior: uma força que, ao invés de negar
a ferida, a faz cintilar.
























